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Rádio Diocesana

10/08 Espiritualidade Espiritualidade e serenidade
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Espiritualidade e serenidade

Espiritualidade e serenidadeExiste algo dentro de nós que nunca se contenta com o comum. Há algo na vida cotidiana que nos faz sentir sobrecarregados por rotinas previsíveis, o ritmo do lar e o cumprimento de deveres, deixando-nos ancorados longe das águas mais gratificantes da paixão, do romance, da criatividade, da dança e da celebração.

Frequentemente demonizamos o cotidiano. Lembro-me de uma jovem, minha aluna, que confessou em sala de aula que seu maior medo na vida era sucumbir à rotina: “Acabar como uma dona de casa e mãe feliz, fazendo comerciais de detergente!”

Se você é artista ou tem um temperamento artístico, provavelmente está muito familiarizado com esse sentimento; é uma das inclinações inerentes à arte. Doris Lessing, por exemplo, certa vez observou que George Eliot teria sido uma escritora melhor “se não tivesse sido tão moralista”. O que Lessing estava sugerindo é que Eliot permaneceu muito ancorada no cotidiano, muito protegida, muito segura e muito distante dos limites.

Kathleen Norris, em sua obra biográfica “The Bennington Virgin”, relata como, quando jovem escritora, caiu na armadilha dessa mesma ideia: “Eu pensava que os artistas eram sérios demais para levar uma vida sã e normal. Arrastados por forças inexoráveis ​​em um mundo indiferente, estavam destinados a uma luta inevitável, às vezes letal, mas sempre enobrecedora, contra a escuridão e o desespero.”

Uma luta enobrecedora contra a escuridão e o desespero! Certamente soa sedutor, especialmente para aqueles de nós que se consideram artísticos, intelectuais ou espirituais. É por isso que, a qualquer momento, podemos sentir uma certa pena condescendente por aqueles que alcançam a felicidade simples. “Como é fácil para eles”, pensamos, “mas estão se contentando com tão pouco!” É o artista dentro de nós falando. Afinal, ninguém nunca viu um artista em um comercial de detergente!

Não me interpretem mal. Nada disso é totalmente ruim. O próprio Jesus disse que nem só de pão viverá o homem, e nenhum artista precisa que isso lhe seja explicado. Eles sabem perfeitamente que uma rotina segura, o cumprimento das obrigações diárias e a hipoteca quitada não são suficientes por si só para nos levar ao paraíso. Precisamos de pão, mas também precisamos de beleza, cor e celebração.

Doris Lessing, uma escritora verdadeiramente genial, filiou-se ao Partido Comunista quando jovem, mas o deixou ao amadurecer. Por que ela o deixou? Uma única frase resume tudo. Ela disse que deixou o partido “porque eles não acreditavam em cor!”

Jesus nos assegura que a vida não deve ser vivida em preto e branco; ou seja, como um ciclo interminável de levantar, tomar banho, ir trabalhar, cumprir nossas responsabilidades, voltar para casa, jantar, preparar tudo para o dia seguinte e voltar para a cama.

E, no entanto, há muito pelo que ser grato nessa rotina aparentemente monótona. O ritmo do cotidiano é, em última análise, a fonte mais profunda da qual fluem a alegria e o significado. Kathleen Norris, após relatar sua tentação juvenil de rejeitar o ordinário e se engajar nessa luta enobrecedora contra o desânimo, conta como uma grande mentora, Betty Kray, a ajudou a evitar cair nessa armadilha. Kray a encorajou a escrever tanto a partir da alegria quanto da tristeza e a “descartar o romantismo da loucura como uma ilusão”. Como a própria Norris afirma: “Ela se esforçou para me convencer do que seus amigos hospitalizados por doenças mentais sabiam muito bem: que uma apreciação pura e simples pelas coisas comuns da vida diária é um tesouro incomparável na Terra.”

Às vezes, é um tipo diferente de professor que nos ensina essa lição. Quando recuperamos a saúde e as forças após uma doença que nos afastou do trabalho e da rotina, nada é tão gratificante quanto retornar às coisas simples: o trabalho, a rotina, a normalidade do dia a dia. Só quando nos é tirado e depois devolvido é que percebemos que a verdadeira riqueza reside na apreciação pura e simples do cotidiano.

Ainda assim, os artistas não estão totalmente errados. O cotidiano pode nos sobrecarregar e nos impedir de mergulhar nas águas mais profundas da criatividade, do romance, da cor e daquela faísca vibrante que nos convida a dançar. Mas, dito isso, âncoras e peso também desempenham uma função valiosa: impedem que sejamos arrastados pela correnteza. Elas ancoram nossa sanidade e nos mantêm firmes. O ritmo da vida diária é, talvez, a âncora mais poderosa que temos para manter nosso equilíbrio.

Em uma canção dos anos 70 intitulada “An American Tune”, Paul Simon canta sobre como lidar com confusão, erros, traição e outros golpes que destroem nossa inocência. Ele conclui essa balada melancólica serenamente com estas palavras: “Ainda assim, amanhã é mais um dia de trabalho, e eu só estou tentando descansar. É só isso que estou tentando fazer: descansar.”

Atender a essa necessidade nos ajuda a manter os pés no chão. Há uma imensa profundidade em ser uma pessoa simples e satisfeita, enraizada nos ritmos diários, que ao final do dia busca simplesmente descansar um pouco.

Original em inglês

https://www.ciudadredonda.org/articulo/espiritualidad-y-serenidad/